O construtivismo e a linguagem engraçada dos bebês

julho 14, 2016

Por que meu filho fala “mamãe, eu ponhei aqui o brinquedo”, ao invés de “eu pus”? Ele ouve mal? Está desaprendendo a falar? Ele tem algum problema?
Criança não é um livro em branco que os adultos ajudam a iniciar a escrita das páginas; criança não é uma sementinha que vamos plantar para germinar e virar uma flor no jardim da infância…
Essas metáforas, tão comum há algumas décadas, estão muito ligadas a uma concepção de desenvolvimento infantil em que as crianças tinham um papel pouco ou nada ativo na construção de seu conhecimento. Acreditava-se que aprendiam por repetição e sempre por via de um adulto que transmitia os conhecimentos.
Hoje, com o desenvolvimento das pesquisas e estudos no âmbito da psicologia do desenvolvimento, sabemos que as crianças são os sujeitos de suas aprendizagens. A partir de suas ações e pensamentos se apropriam do mundo e constroem seu repertório de conhecimento.
Claro que é importante o que elas possam ter acesso para que isso aconteça e, nesse contexto, a figura do adulto é fundamental. Mas são elas que agem nesse processo de se apropriar do novo e torná-lo parte de seu conhecimento.
E é nesse processo que as crianças cometem o que os psicólogos construtivistas chamam de erro construtivo.
Diferente do erro por falta de conhecimento ou um erro por distração, esse erro mostra uma atitude inteligente da crianças, mostra que estão pensando e procurando adequar alguns conhecimentos ao que já sabem. Esse erro é considerado construtivo porque permite um avanço no conhecimento.
Isto ocorre por exemplo em situações em que as crianças já se apropriaram das formas verbais regulares e tentam usar a mesma regra para os verbos irregulares, produzindo frases assim:
– “Eu fazi esse desenho para você, papai!”
Como os verbos no pretérito perfeito, em muitos casos, terminam como “eu comi, eu corri, eu engoli, eu perdi…”, as crianças conjugam o verbo fazer da mesma maneira.
Outros exemplos lindos da tentativa das crianças regularizarem os verbos:
Artur, 7 anos, irmão mais velho, procurando papel para desenhar diz: “Mãe, não tem papel na terceira gaveta!”
Helena, 2 anos, ouvindo comenta: “Artur, você confusou. Essa aqui que é a gaveta dos papéis…”
A mesma Helena ouvindo a babá descendo as escadas perguntou quem era. Gina respondeu brincando que era o lobo mau. Helena muito indignada vai contar à mãe: “A Gina mentirou…”
Outro erro construtivo muito comum aparece quando as crianças tentam usar as letras do final da palavra para indicar o gênero, pois acreditam que o “o” sempre se refere ao masculino e o “a” ao feminino. Produzem frases lindas como:
– “Esse lobo é mau que nem aquela bruxa que era muito maua na história da Branca de Neve”.
E às vezes inventam palavras considerando as regras que já conhecem, como ocorreu nessa ocasião:
Perguntada como tinha ficado com tanto glitter, Juliana, 4 anos, respondeu:
– “É que tem fantasias novas na escola, cheias de glitter, aí glitou!”
Vale a pena colecionar essas frases, pois mostram claramente como as crianças estão aprendendo e se apropriando de conhecimentos.
‘Fonte: Toda Criança Pode Aprender, publicado originalmente em EBC.’

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